sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A guerra, esta coisa de fresco

Quando quero me entender melhor, repito para mim mesmo que esta não é a hora, outro dia talvez. Quando quero entender melhor a humanidade, medito ao som de Tim Maia Racional e Carlinhos Brown. Quando quero entender melhor as mulheres, encho a cara. Se eu fosse você, mulher, quando quisesse entender melhor nosso comportamento ogre recorreria ao futebol. Não existimos sem a noção do perigo do oponente, nem sem a noção de alianças para vencer a guerra, nem sem a noção de ser a guerra um divertimento vital. O mundo moderno só se civilizou depois da ascenção do futebol. Sublimamos a truculência destruidora. Somos Hitleres, Stalins, Churchills, Mussolinis, Roosevelts, Hiroitos, De Gaules e terroristas do gramado, das arquibancadas e dos sofás.
Ok, a retórica aí não prima pela originalidade, embora - admita - contextualize bem as coisas.
Dito isto, vamos aos pequenos acontecimentos recentes do mundo do futebol.

O excelente blog Idiotas da Objetividade põe rodrigueanamente o futebol à luz de Shakespeare e à sombra do sobrenatural. Sem dúvida este é o lugar de direito do futebol (mais shakespeareano que sobrenatural, já que aquele compreende este, tome-se o infeliz príncipe dinamarquês por exemplo).
Ultimamente, entretanto, o futebol tem incorporado ao seu lado trágico, cômico, épico, místico, mágico e mercantilista uma característica que o afasta da pura luz shakespeareana: a frescura, a veadagem existencial de meia pataca. Ou seja, o futebol se transformou no Alexandre de Oliver Stone: uma hora pra guerrar, outra pra soltar a franga.

O caso mais recente de vedetismo canhestro foi perpretado pelo atacante-hipopótamo Ronaldo Bola, que às vésperas de um importante clássico continental veio a público demonstrar sua insatisfação com a torcida madrilenha, que não o cobre de mimos e adulações. Até aí já havia material suficiente para emporcalhar a semana futebolística com mais draminha, e eis que então surge o "capitão" espanhol Raul Gonzalez, outro mimado que não joga porra nenhuma há séculos, para repreender publicamente Ronaldo Bola, numa demonstração de oportunismo fenomenal (sem trocadilhos, que o Bola - apesar de ótimo atacante - nunca foi fenômeno). A torcida espanhola, claro, adorou. E o escrotão do Raul volta de uma contusão que o deixou meses de molho por cima da carne seca.

O segundo caso da semana é mais engraçado, embora mais perigoso. Trata-se das declarações do salazarista José Mourinho contra o futebol de ator praticado pela equipe do Barcelona e - por extensão - por boa parte dos povos latinos, inclusos aí brasileiros, argentinos, espanhóis e portugueses. Não confundir com futebol arte, o futebol de ator é praticado por jogadores inescrupulosos que se atiram ao chão simulando faltas dentro da grande área ou próximas a ela. As vítimas, claro, são os pobres ingleses, sempre tão retos, incapazes de cometer faltas, de dar pancadas.
Com essa conversinha, Mourinho intentava nada menos que um passe livre junto ao árbitro norueguês para descer o sarrafo nos habilidosos jogadores do Barcelona. Não conseguiu o que queria, e aos 37 minutos do primeiro tempo o lateral do Chelsea, Del Horno, foi expulso de campo depois de duas entradas a la Júnior Baiano sobre o impossível atancante argentino Lionel Messi. Resultado, o Chelsea perdeu em casa por 2x1.

O gramado do estádio Stamford Bridge, em Londres, estava lastimável, duas vezes pior que o gramado do estádio dos Estudantes de Timbaúba, se isto é possível. Uma vez que o Chelsea é um dos clubes mais ricos do mundo, chefiado pelo magnata russo Roman Abramovich, responda rápido: por que não havia grama (nem drenagem que desse jeito em tanta lama) justo no jogo mais importante do ano? Mourinho - um excelente general, justiça seja feita - considerou absurda a hipótese de uma tentativa de prejudicar o toque mais refinado e as jogadas individuais do adversário, suas marcas registradas.

Em tempo, o best-seller dos treinadores de futebol - além das malignidades de auto-ajuda - é o famigerado A Arte da Guerra, do famigerado Sun Tzu.
E ainda teimam em dizer que a má literatura é inofensiva.

Saldo da semana: tudo leva a crer que depois do seu período máximo, a guerra, por estas e outras, está se tornando mesmo coisa de fresco. Dá até pra entender Gandhi, querer um pouquinho de paz invadinho meu coração, uma bomba sobre o Japão, aquele axé legal... Ui...

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial