quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Completando o time do adversário

A vida, todo mundo sabe, é menor que o futebol. Esqueça os pobres lugares-comuns das expressões futebolísticas que explicam os lugares-comuns do cotidiano, especialmente o cotidiano político. O universo paralelo do Jogo Maior é um excelente repositório figurativo para uma vida inteira de situações incomuns, inexplicáveis, complexas ou clássicas que precisam ser descritas. Tomemos por exemplo a clássica situação do advogado do diabo. Que há de mais humano que o sujeito que advoga a causa do diabo? Falo das duas coisas humanas por excelência: cobiça e magnanimidade. Sim, claro, o cidadão que advoga tal causa ou o faz por a) acreditar que "dinheiro não tem ideologia" ou b) por cavalheirismo. É uma imagem rica, que ainda vale dentro do próprio auto-conhecimento (dentro do próprio autoconhecimento, sacou? É um recorde da redundância), a partir dos momentos que reservamos para a) defendermos o nosso lado sombrio (perceba que o bundão-mor do Jorge Lucas limou o divinal "lado negro" até dos filme antigos...) ou b) pra nos detonarmos mesmo. Segui essa opção b recentemente, no meio de uma reunião, e acabei enxergando - depois de convencer todo mundo - que eu estava miseravelmente errado. Fiquei com vergonha e saí de fininho, antes que o pessoal percebesse a merda que estava fazendo. Hahaha. Mas é..., nossas melhores idéias não resistem a nós mesmos, do outro lado, botando pra foder. Os princípios, não, estes são (çasadeus...) mais sólidos, inflexíveis. É bom não confundir as coisas, encher o idealista de porrada até que ele confesse tudo e saia correndo, como um espírito possessor que afinal nos deixará em paz.
(Me perdi.)
(Me encontrei.)
A única ressalva a esta valiosa composição espiritual-jurídico-democrática é seu nome perebento: advogado do diabo é foda. Não pelo diabo, claro.
É onde entra o futebol nessa história. É bem mais bonita a alegoria dos 22 secões que vão a campo e de repente percebem que um dos times tem dois jogadores a mais, 12 contra 10, e que é necessário alguém cruzar the thin red line. Faz-se um sorteio, épico zerinho-ou-um, e daí surge o infeliz vira-casaca. Lá pelas tantas, o infeliz se pega descendo o sarrafo nos ex-companheiros, doido pra fazer um gol e esmagar o adversário, agora, totalmente destituído do encanto mítico de outrora, nitidamente um time de merda que não vale um conto. Exagero, exagero. O fato é que o time de opção (não do coração, que com isso não se brinca) nem sempre é moral e circunstancialmente o melhor.

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