terça-feira, fevereiro 07, 2006

Proslógio

O oco da minha cabeça é uma libertina casa de passagem. Nela os viandantes dão um tempo, se conhecem ou não, ficam e ajudam a manter a casa ou partem (pagando ou não a conta, deixando ou não lembranças), descobrem cômodos secretos e por lá se perdem (alguns para sempre, outros pelo tempo que dure); em sinopse: o infinito circular da Grande Putaria. Recentemente, Franklin Foer, Steven Spielberg e Santo Anselmo instauraram o caos. Os novos paradigmas da educação se juntaram à balbúrdia. Tive que tanger estes últimos porta da rua afora.
Minha cabeça também é um bojudo tanque de fermentação, cujo produto - depois de dias, semanas, meses, décadas de obscura alquimia - é silenciosamente derramado fora. Isto de quando em quando. Acordo e não há mais nada lá.
Que bom que você - sem tirar, nem botar - é igual a mim.
Só me pego cosmicamente apreensivo nesses desvios que a tanatofobia nossa de cada dia nos impõe: o meu medo da morte fica evidente quando enxugo a testa por causa de um editor de texto que insiste em se manter vazio, dos milhares de cadernos que compro e nunca termino, ou dos rascunhos musicais. Caro, cara, a sucessão dos dias pode ser um desbunde sensorial, filosófico, social, emocional, etc, mas tem um fim e isto é inaceitável. Inaceitável do ponto de vista da aceitação total, claro. Só os franceses se rendem tão fácil, ninguém mais. Ninguém. Os franceses são o extremo oposto de Rocky Balboa e Herbert Vianna. E como não entregar os pontos sem tentar permancer da única maneira possível? Pode-se escolher formas mais simplórias de notoriedade como a fama pela fama, o modelo da celebridade, pode-se optar pela pretensão da arte duradoura, ou ainda a marca física, um se encher de toda a vontade que há no mundo e sair por aí torrando o saco alheio, a provocar um fato histórico (uma guerra ou a construção de um viaduto, por exemplo). Não há imortalidade, evidentemente, mas pode-se viver o quanto se deseja. Tenho um bisavô que deve morrer depois do terceiro quarto deste século, quando Pablo não lembrar mais dele. Ele nasceu em 1892 e se chama Alfredo. Não tomou nenhum dos três caminhos planamente apresentados acima, em vez disso, fez de trabalho e família a sucessão de seus dias. E vejam só, viverá quase dois séculos, talvez mais, sem maiores esforços. Duvido que pretendesse viver mais.
Não há prevenção para desejo de longevidade (ou posteridade). Nem cura. Cada um lida (intuitivamente, claro, instintivamente, claro, de modo subconsciente, claro, que ninguém vai querer pecar pela indelicadeza de falar da própria sina de formiguinha de La Fontaine quando o assunto é vida e morte, lembrança e esquecimento) de jeito distinto com o porvir.
Eu, com meus botões costurados por Dona Elza, me preocupo com a incapacidade de escrever. Besteira, que seja, já mentalizei mil vezes que a gravidade é um pé no ovo, que adoraria rir dos meus trinta e poucos anos na velhice; devo admitir que também adoraria fazer alguém rir depois de morto. Entenda, não é fazer um morto sorrir, credo em cruz, é ser um morto legal, não sem pecado, como diria Odorico Paraguaçu, mas legal, e meio filho de rapariga, oh, sim. É um desejo - este da permanência essencial - que está antes de mim, antes do nome, do verbo, da luz, da água e do gás. Não é que perca tempo pensando em como viver mais ou na velhice. Nem pretendo reconhecimentos além dos reconhecimentos profissionais, familiares e fraternais, não nessa ordem (aliás, nem reconhecimento profissional almejo, dinheiro e prazer no trabalho já me contentam, ou muito dinheiro sem prazer, hoho). Antes, sondo/rondo essa preocupação morna, a um só tempo aparentemente despretensiosa e não identificada, com toque límpido de suor na testa, e chego à necessidade de lavrar importâncias quaisquer. Daí chego à necessidade de durar. E daí à brilhante conclusão que é tudo coisa do dna humano e, portanto, besteira útil numa mesa de bar, boa pra encher lingüiça num blog.

Sobre a velhice: esqueci completamente os três assuntos que tinha pra papear aqui.

Tatá Records é isso aí, o mesmo post escrito mil vezes e música de hippie.

P.S.: Vou vencer pelo cansaço.

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