Garrincha ou Maradona?
Dia desses (faz um tempo do cacete, mas vamos fazer de conta) participei de uma discussão virtual insana sobre quem foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos. O fórum aceitava gregos, eslovenos, italianos, espanhóis, americanos, malaios, islandeses e até argentinos. Tinha um ou dois loucos com um avatar do Flamengo. E eu. Que não mencionei ser torcedor do Santa pra não perder de vez a credibilidade durante a discussão.
Por que estou falando de algo tão desatualizado e inútil para o futuro da humanidade depois de tanto tempo sem postar? Porque parei na contramão e criei raízes, broto. A internet me merece.
A discussão, obviamente, comparava Pelé e Maradona, com argumentos absurdos dos dois lados. O mais absurdo deles, contudo, era o de que era impossível compará-los, pois eram de épocas diferentes.
Não compare Beethoven a Stravinsky, nem sangrias com antibióticos, diriam os defensores del chaco.
Eu não precisaria dizer isto, mas tô torcendo pra um argentino vir parar aqui. Não por ele ser argentino, mas por ser torcedor de algum time de futebol e se interessar pelo tema, e ter tudo pra ser tapado e precisar de explicação. Como eu preciso vez em quando.
Meus argumentos absurdos:
Édson x Armandinho
Em primeiro lugar, contra os fatos, não há argumentos:
1) O negão fez quase 1.300 gols em pouco mais de 1.300 jogos. Certamente os putos da Fifa e babões dos putos da Fifa vão dizer: Ah, ele conta gols em times amadores, combinados, etc. Verdade. Se tirarmos esses gols, ele fica apenas com uns mil e poucos gols, talvez um pouquinho mais (viuvinhas de Romário, Pelé chegou aos 500 gols com 22 anos, aos 1000 com 28, 29. Não aos 80). Resumindo, o negão fez quase 1 gol por jogo durante mais ou menos 18 anos.
E Maradona, fez quantos? 352 gols em mais de 18 anos de carreira (e apenas 692 jogos).
Média do Negão: 0,93 gols/jogo.
Média do Tampinha: 0,51/jogo.
2) A partir de 1958, Pelé sempre foi Pelé. Foi espetacular - como organizador de jogadas, goleador, showman e ganhador de títulos - até 1974, quando abandonou o futebol pela primeira vez. A passagem pelo Cosmos de NY (seu breve retorno) poderia ficar de fora dessa, se lá ele não tivesse jogado ao lado de fodões mais novos como Beckenbauer e Carlos Alberto Torres e brilhado do mesmo jeito, abocanhando mais um título.
Maradona foi Maradona entre 1986 e 1991, quando foi banido do futebol italiano por uso de substâncias proibidas para atletas profissionais (não estou considerando a montanha de farinha cheirada por Don Diego desde 1982). Em 1994 voltou à Copa e foi banido novamente. Por fim, encerrou a carreira no Boca Juniors (que não tinha Beckenbauer, nem Carlos Alberto Torres), pelo qual ganhou a Copa A. Franchi em 1998.
Tempo de top-top player de Pelé: 18 anos.
Tempo de top-top player de Maradona: 5 anos.
3) Pelé ganhou três Copas do Mundo. Maradona ganhou uma. Repetindo: 3x1.
4) Pelé foi Bi-Campeão Mundial Interclubes, batendo o lendário Benfica dos anos 60 e o Milan. Maradona foi campeão da Copa da Uefa (espécia de Comenbol européia) batendo o...
Stuttgart...
5) Ambos fizeram gols espetaculares. Todos os gols espetaculares de Maradona podem ser vistos em belas imagens coloridas e com narrações contemporâneas. Boa parte dos gols de Pelé nunca aparecerão em dvds ou reprises televisivas, pois não foram gravados. Mais da metade dos gols disponíveis está num preto e branco bisonho.
Blue note: as testemunhas das proezas de Pelé tornam-se cada vez mais raras no mundo.
6) Ambos deram centenas de gols para os companheiros e eram notórios organizadores de jogadas ofensivas. Maradona é cultuado por isso. Pelé não.
Em verdade, muita gente pode ser tomada como maior organizador de jogadas de todos os tempos.
Leia isto: While Pele, Maradona and others could change a game with an insane goal, Zidane altered the outcomes of the matches by simply dominating huge areas of the pitch for the entire match. I would take him over any of those guys because he created goals for whoever happened to be playing in front of him.
Dã.
A lista pode prosseguir indefinidamente: Cruyff, DiStefano, Zico, Platini, Matheus...
7) Ambos decidiam jogos cruciais. Pelé jogou duas finais de Copa de Mundo e decidiu nas duas. Maradona jogou duas finais de Copa do Mundo e decidiu em uma.
8) Pelé chutava bem com a direita, com a esquerda, era veloz, cabeceava como ninguém, tinha enorme visão de jogo, domínio incrível de bola, driblava assombrosamente, tinha um passe perfeito e marra pra decidir em qualquer circunstância.
Maradona chutava bem com a esquerda, era veloz, tinha enorme visão de jogo, domínio incrível de bola, driblava assombrosamente, tinha um passe perfeito e marra pra decidir em qualquer circunstância.
Maradona fazia tudo isso turbinado. Pelé, não.
Além de dominar todos os fundamentos do futebol, Pelé era também bom goleiro. Nas ocasiões em que o Santos perdia o goleiro durante o jogo (não havia substituições), ele ia pro gol e pegava até pênalti.
9) Pelé jogava entre craques e gênios. Maradona jogava entre bons jogadores e um ou outro craque. Isto prejudicaria Maradona na comparação.
Fatos adicionais:
Ronaldinho Gaúcho jogou entre craques na Copa de 2006...
Zidane jogou entre craques em 2002...
Mathaus jogou entre craques em 1986...
Zico jogou entre craques em 1982...
(...)
Ganharam?
10) No tempo de Pelé não tinha marcação tão forte quanto no tempo de Maradona. Mas também não tinha:
- Cartão vermelho, nem amarelo para os marcadores violentos
- Medicina Esportiva e Fisioterapia de alto nível
- Campos decentes em abundância
- Descanso adequado entre as partidas (lembre-se: um jogou mais de 1.300 partidas em mais ou menos 18 anos de carreira, o outro jogou apenas 700 partidas em mais ou menos 18 anos de carreira; claro, em parte desse tempo ele esteve proibido de entrar em campo)
- Rios de dinheiro e comodidades mil pra quem fazia muitos gols
- As condições de viagem e hospedagem dos anos 80
- Material esportivo de grande qualidade e personalizado
- Apenas um ou dois atacantes (como nos anos 80) a canalizar a maioria dos gols do time.
- E principalmente, tantos cabeças-de-bagre quanto na época de Maradona
11) Não é verdade que na Europa era muito mais difícil de jogar do que no Brasil. Certamente é hoje em dia, mas um Brasil em que os adversários eram Garrincha, Didi, Nilton Santos, Ademir da Guia, Tostão, Brito, Rivelino, Djalma Santos, Gerson, Amarildo, Jairzinho e outros não era exatamente um lugar fácil de brilhar, muito menos de ser a estrela maior. Vide Evaristo de Macedo, que saiu praticamente incógnito do país rumo à Espanha e se tornou ídolo no Barcelona como protagonista de vitórias históricas contra o todo-poderoso Real Madrid de Puskas e Di Stefano. Outro exemplo é o de Mazzola, que com a ascenção de Pelé, Vavá e cia perdeu lugar na Seleção e foi brilhar na seleção italiana e no Milan como Altafini.
Ademais, não jogar em um continente onde caras como Jardel, Elber, Anderson (lembram dele?), Alemão, Roque Júnior, Emerson, Marcos Senna, Taddei(!!!), Silvinho e Adriano são tidos como craques ou grandes jogadores não faria realmente muita diferença para Pelé.
Não é que Pelé não tenha jogado na Europa. A Europa é que nunca pôde ter Pelé.
Estes 11 fatos são mais que suficientes para encerrar a discussão.
Mas pra que acabar com a diversão? Você acha que alguém que viu ou ouviu um mínimo dos feitos de Pelé consideraria de verdade a comparação com Maradona?
A diversão continua.
A maior justificativa para a diferença entre o volume de conquistas e feitos de um e outro tem sido, ao longo dos último anos, a diferença entre o futebol dos 50,60 e 70, e os 80 e 90, o que teria favorecido injustamente o camisa 10 dos Santos.
É um argumento baseado no se, fincado solidamente no campo das probabilidades que não ocorreram. O estádio dos Maradonistas.
No estádio de Pelé, o Campo dos Fatos, já se viu que foi goleada pro time da casa.
Como o Negão dava show até na Bombonera, vamos à casa dos hermanos, então.
Nesta casa, o Campo do Se, Pelé nasceu vinte anos depois para jogar nos 'duros' anos 80 e Maradona vinte anos antes para jogar nos 'fáceis' anos 60.
Se Pelé jogasse na época de Maradona e Maradona na época de Pelé
Em 1958 (como aconteceu de verdade em 1978), Maradona, longe de desenvolver completamente seu jogo de alto nível, é cortado da Seleção Argentina.
Ainda assim, faz muitos gols em seus primeiros anos de carreira, todos, claro, na Argentina.
Em 1962, é titular da seleção de seu país, mas decepciona e acaba perdendo a cabeça em um jogo contra o Brasil (vide Copa de 1982). Como não havia cartão vermelho na época, permanece em campo, mas não evita o baile. Garrincha (vide 1962) ganha a copa praticamente sozinho para o Brasil.
Em 1966, Dieguito arrasa na Inglaterra e tira o título certo dos donos da casa em pleno Estádio de Wembley. A Rainha Mãe infarta na tribuna de honra e Helen Mirren não ganha o Oscar de atriz 40 anos depois.
Finda a grande conquista, porém, Maradona, depois de muito apanhar de zagueiros botinudos que nunca levariam cartão pelas agressões, depois de tomar muita infiltração de anti-inflamatório para poder jogar e depois de dores cada vez mais fortes no seus instrumentos de trabalho, vai percebendo que é cada vez mais difícil agüentar aquela vida de globe-trotter (o Boca Juniors excursiona pelo mundo inteiro, embora o dinheiro não seja tão abundante na vida dos jogadores). Jogando cada vez menos, Maradona mergulha de cabeça no álcool e numa vida mais e mais desregrada.
Na Copa de 1970 é apenas uma sombra de si mesmo. Ainda marca um golzinho de falta, mas a Argentina não passa da primeira fase.
Em 1974 a carreira de Maradona já acabou há muito.
Esquecido, pobre, morre pouco tempo depois, vítima do álcool.
Cronistas do mundo inteiro associam imediatamente o seu drama ao de Garrincha, também morto em circustâncias semelhantes. O L'Equipe lamenta em sua capa: A Triste Sina dos Heróis Sul-Americanos.
Sem Pelé, o Brasil não ganhou a Copa de 58, vencida pela França de Just Fontaine.
Sem Pelé e Maradona, a Copa de 70 é vencida pela Inglaterra.
A Copa de 74 é conquistada pela mesma Alemanha.
Em 1978, aos 17 anos e jogando de atacante, Pelé brilha na Copa da Argentina. Brasil bi-campeão do mundo na casa dos hermanos, que nem ganhando de 12x0 do Peru conquistariam a classificação, pois perdem antes para o Brasil com um gol do novo rei do futebol em pleno Monumental de Nuñez.
Em 1982 Pelé se machuca no segundo jogo da Seleção, mas como a preparação física dos atletas atingiu um patamar superior ao dos longínquos anos 60, a lesão não é tão grave quanto se supunha. Não bastasse, o departamento médico o devolve ao técnico Telê Santana dias antes do jogo contra a Itália, pelas quartas de final. No auge de sua forma física (o Santos acabara de ganhar sua primeira Libertadores e ganharia em breve seu primeiro Interclubes) Pelé executa com fria precisão o goleiro Zoff. Brasil 5x3. Fora o baile. A Alemanha cai fácil na final. Brasil tri-campeão do mundo.
Em 1986, Pelé, de pênalti, elimina a França. A reprise da final de 82 não é tão feliz para o Rei. Caçado em campo, apesar da recuperação de Zico, o Brasil perde ante o futebol de força dos bávaros, que conquistam a copa diante da Inglaterra.
Em 1990 vem o troco. Motivadíssimo e estrela solitária de um time apenas mediano, Pelé leva o Brasil a uma magra, mas definitiva vitória sobre a mesma Alemanha de sempre. Brasi tetra-campeão.
Em 1994, Pelé, que abandonara a Seleção, volta à camisa 10 amarela como principal chamariz entre o povo americano para a Copa dos EUA. Com três volantes brucutus, mais Pelé, Romário e Bebeto na frente, o Brasil tem o maior saldo de gols pró na história das copas. Finda a campanha do Penta, a despeito do ótimo condicionamento físico, deixa o futebol, depois de passagens vitoriosas pelo futebol espanhol e italiano, onde se tornou o maior artilheiro, superando nomes de peso como Hugo Sanchez, Careca, Klinsmann, Romário e Van Basten.
Ou seja, no mundo real, Pelé é muito melhor que Maradona.
No Campo do Se, Garrincha, que brilhou em duas copas e ganhou uma, é melhor que Maradona, que iluminou e ganhou apenas uma.
Como - depois de tanta fantasia - continuamos no mundo real: Maradona foi melhor do que Garrincha. Mesmo tendo vencido apenas uma Copa do Mundo, contra duas do Mané.


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