Lulu et Lucien

Lulu Peyraud era Lulu Tempier, filha do dono do Domaine Tempier, em Bandol, na Provença. Lucien Peyraud caminhou sozinho para o sul depois da Segunda Guerra e viu - durante a longa marcha - como paisagem, clima, solo e pessoas mudam mais no espaço que no tempo. Como se sabe desde que o mundo é mundo, uma boa viagem leva a um cliché apoteótico: abestalhou-se com o céu da Provença e a coloração de todas as coisas. Van Gogh 2, A Missão. Parou na cidadezinha de Bandol, conheceu Lulu, tornou-se ajudante do pai da menina entre os renques de videiras velhas ou fazendo vinho na adega da família. Lulu e Lucien tiveram sete filhos. Lulu teve. E continuou uma mulher linda. Lucien fez ressurgir a apelação de Bandol, tintos e rosés de fábula feitos sobretudo com a uva Mourvedre, responsável pelos vinhos mais resistentes à oxidação e, portanto, os mais naturais, pois precisam menos dos conservantes.
Lulu ficou conhecida em toda a França pela beleza e pela mão na cozinha. Durante os anos 50, 60 e 70, para desgosto das francesinhas feministas, cuidou dos filhos, criou molhes de receitas que afamariam a slow food provençal, recebeu quinze mil cantadas e preparou banquetes em sua própria cozinha para camponeses, vinicultores, estrelas de cinema e Charles De Gaulle. Enquanto Lulu cozinhava e cuidava dos filhos menores, Lucien trabalhava nas videiras e na adega com os filhos maiores. O Domaine Tempier - atualmente dirigido pelos filhos maiores e menores - produz clássicos sem prazo de validade, o tempo de Lulu e Lucien passou, virou mito. Desconfio que estão mortos, não sei ao certo, e vivo atrás do livro que Richard Olney fez sobre ela e as receitas dela. Nada disso chega aqui, brasileiras e brasileiros. Nem Lulu, nem os vinhos do Domaine Tempier, que são vendidos até nas Bermudas. É preciso ir lá.
(não nas Bermudas, entenda)


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