domingo, junho 18, 2006

Copísticas

A FRANÇA

tem um técnico que não convoca atletas nascidos sob o signo de escorpião (não, não é brincadeira). Comediante nato, o venerável selecionador jamais convocaria Pelé, Garrincha ou Maradona, por exemplo.
Há mais a ser falado sobre o cara e sobre o time, mas diante do exposto, tudo perde a relevância.

A INGLATERRA

é como o Goiás ou o São Caetano dos bons tempos: um time forte, sério candidato ao título, que sempre fracassa por falta de camisa e de banco. Sim, o time reserva da Inglaterra é ligeiramente melhor que o Fluminense de Feira de Santana.

A ALEMANHA

conta com os maiores pernas-de-pau da história para levantar o caneco. E levantará. Esta Copa já foi ganha no tapetão, há alguns anos, quando Beckenbauer e bando furaram a fila do rodísio de países-sede (depois de 1998 o mundial não deveria voltar tão cedo à Europa), passando a perna nos sul-africanos.

A ITÁLIA

tem ótimos jogadores e uma besta como técnico, não sabe ser favorita e tem uma camisa que anda sozinha. Se você pensou no Brasil, passou perto. A diferença está no solo e na exposição. Apenas a combinação made in heaven de Pelé e Garrincha logrou êxito estrangeiro no continente europeu. Os italianos também fazem menos comerciais de tv que os brasileiros.

A ARGENTINA

está mordida, calada, harmônica, coesa, implacável, assertiva, sem máscara, sem peso extra, sem chiliques, sem polêmicas, sem badalações, sem vaidades. Depois de destruir os restos da Sérvia e Montenegro, os cabeleiras se abraçaram e comemoraram, felizes, aliviados, tomando justa idéia das próprias forças. Embora presumivelmente ofuscado pela aula de futebol, seu comportamento dentro e fora de campo é mais precioso que seu jogo. Como a Alemanha será campeã, apesar deles, ainda é um mistério.

O BRASIL

tem os melhores jogadores do planeta e um dos piores times da Copa. À exceção do número 8, do número 5, do ausente número 10 e dos números 3 e 4, seus melhores jogadores estão no banco de reservas. Parreira assume que Seleção - pra ele - é currículo, não momento, tesão, estado físico. Embora nenhum dos jogadores de 94 tivesse currículo de campeão. Parreira diz que na seleção brasileira, seu trabalho é mais de um gerenciador de talentos do que de técnico. E assim mantém desmotivados, entediados e mundanos em campo, e sequiosos, centrados e esperançosos no banco. Chamam isso de coerência.
Não tenho conseguido gritar os gols marcados pela coerência.
Azar meu.

O diário As acerta com a exatidão sub-atômica de quem vê de fora: A Brasil le cuesta muy poco hacer una jugada de gol. Es su principal virtud. Lo que le convierte en favorito a todo pese a que aún tenga pendiente enamorar en el Mundial.

O RESTO DO MUNDO

é a graça, o encanto da Copa. Costa do Marfim é um belo time, seria capaz de ir longe se tivesse caído em outra chave. A Holanda é aquela coisa, o Náutico do mundo. Portugal é Felipão for Dummies, sofrimento em estado bruto (pros seus torcedores, claro). A República Tcheca tem um técnico romântico e (bons) jogadores estropiados. Gana é um senhor time, que infelizmente perde gols demais. Não tantos como Japão e Croácia, que por ruindade e pernas bambas merecem deixar a Alemanha depois da próxima rodada. A Espanha é uma incógnita para alguns, aqueles que acreditam em Papai Noel e Saci-Pererê. A Ucrânia tomou de quatro da Espanha, logo a Ucrânia não existe. O classificado Equador - beneficiado pela chave fraquinha - é o Juventude da Copa, aquele time sem sal, sem graça, fazedor de uns gols guenzos, que vai, vai, até que some sem deixar vestígios. A Suécia, apesar de não parecer, tem tradição em copas, alguns bons jogadores, todos coincidentemente de ataque, e uma dificuldade seríssima em fazer gols. A Suécia também tem as torcedoras. Todas suecas, naturalmente. A Austrália é comandada por uma raposa, o genial Gus Hiddink, que deve ter encontrado alguma dificuldade para ensinar futebol para jogadores de rugbi. O México treinou mais que todas as outras seleções, e conseguiu um empate brilhante contra o forte time de Angola, que até um dia desses cogitava convocar Johnson, lendário atacante da Portuguesa de Desportos. Os suiços, famosos por sua neutralidade, consideram o empate o melhor resultado. Dã.
E o resto é menos que o resto.

Em tempo, nas arquibancadas de Brasil 2x0 Austrália, uma esmerada faixa nas cores pátrias sintetizava os sentimentos de uma distante nação: Cala a boca, Galvão.

\o/

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