domingo, junho 18, 2006

A Copa e o Mundo



Sim, estou aqui louco, vendo cada jogo que posso, e tenho podido ver poucos ao vivo. Não fosse a ESPN e sua igual loucura futebolística, com preciosas reprises tarde da noite, eu estaria fodido. Descopado e fodido.

E por que a copa é supimpa? Bom, além do futebol (que já expliquei para você, leitor ou leitora, cada um dos 3.225 motivos para se gostar, amar, adorar), há o breve fenômeno de união dos povos. União não, vá lá, mas que rola uma convivência pacífica e extremamente charmosa, ah, isso rola. E é ótimo ver o futebol humilhar as Nações Unidas, a maior farsa da Terra. É ótimo também ver as Olimpíadas - com suas dezenas de modalidades cabeludas - diminuídas, postas no seu devido lugar de gincana megalomaníaca. Tratando-se dos descaminhos humanos, poucas coisas são tão reconfortantes quanto uma imagem de arquibancada coalhada de vínculos tribais, pinturas de rosto, cantos de torcida em alemão, suáli, klingon, mulheres bonitas, crianças lindas e comemorações típicas se misturando a pequenas ações de convívio, como um levantar-se pro outro passar com o cachorro-quente, um aceno de cabeça etc. Se a gente tem salvação, apocalípticos e integrados, é pelo futebol. Mesmo os gregários americanos, pelo menos os melhores, admitem seu pouco entendimento do resto do mundo com um misto de admiração e inveja. Compre e leia a National Geographic deste mês, com Ronaldinho Gaúcho na capa, para entender melhor. Vale cada centavo. Mesmo que você só goste de ler as figuras. :o)



É nessa revista que alguém diz que o futebol (uma porção de Deus pra outra de Dinheiro) é tão especial a ponto de ter o único favorito (em todos os esportes) pelo qual todos torcem, virando de cabeça pra baixo a historinha de Davi e Golias, que se você for parar pra pensar, nunca foi sobre fortes e fracos, e sim sobre torcedores e Torcedores.



Tenho visto esta copa com os melhores olhos da minha vida, olhos como os de um cão, que só enxerga claros e escuros, diversão e filosofia. Filosofia, bicho.




Um busto



Karol Bruckner merece um busto. É o que se deve fazer por quem dentro de um mês e daí em diante será completamente esquecido. Karol Burckner, o simpático técnico da República Tcheca, com sua cara de velhinha de conto de fadas, tem um dos melhores times da Copa. Esmagou os Estados Unidos na primeira rodada e até ontem parecia ser virtualmente maior candidato ao primeiro lugar num grupo com Itália e Gana. Mas então o caldo entornou logo aos dois minutos de jogo contra os africanos. Os hábeis e fortes ganeses mostraram uma qualidade defensiva inédita entre as melhores seleções africanas, o que desorientou os tchecos, que por sua vez não contavam com dois dos seus mais incisivos atacantes, o habilidoso Baros e o gigante matador Koller, contundido no jogo contra os EUA.
Pra piorar, lá pelo meio do segundo tempo o defensor tcheco Ujfalusi foi expulso de campo.

Veja a situação naquele exato momento: a Rep. Tcheca, que havia ganho dos EUA por 3x0, estava então com um saldo positivo de dois gols. Se assim se mantivesse, suas possibilidades de vencer a Itália (esperava-se que a Azurra despachasse os EUA no jogo seguinte) na última rodada e terminar em primeiro seriam consideráveis. E terminar em primeiro nesse grupo significa evitar o Brasil.

O que fez Karol Bruckner diante desse panorama? Encheu o time de atacantes e partiu pro tudo ou nada. A cada ataque mal-sucedido dos tchecos, uma avalanche de ganeses se precipitava sobre o goleiro Cech, que justificou sua fama como um dos melhores do mundo (veja qualquer jogo do Chelsea ou da República Tcheca pra engrossar o coro).

Gana não demorou a fazer 2x0, e ainda perdeu um pênalti. Eu e Pablo nos abraçamos, era a primeira vitória africana na copa.

Foi um jogaço.

Depois fiquei imaginando outra seleção, outro técnico, nos lugares da República Tcheca e de Karol Bruckner. Tenha certeza absoluta de que o jogo terminaria 1x0. Seria um espetáculo deprimente, truncado, talvez violento. 0x1 com um homem a menos - dentro daquele contexto - estaria de ótimo tamanho para o italiano Marcelo Lippi, para o francês Raymond Domenech ou para os brasileiros Parreira e Felipão. No máximo um empatezinho e olhe lá.
Bruckner partiu pro pau, abriu ainda mais o jogo e se permitiu ficar com apenas um zagueiro. Poderia ter empatado e virado se tivesse seus atacantes titulares ou se os bons Nedved e Rosicky estivessem em um dia melhor.

Agora, as chances de ganhar da Itália (que soma 4 pontos) e se classificar em primeiro são mínimas. As chances de se classificar em segundo também são remotas: o empate é um péssimo resultado (somaria 4 pontos e a Itália pularia pra 5), já que os ganeses (3 pontos) devem derrotar os americanos (1 ponto) e terminar com seis pontos.

Muitos cálculos para dizer que o tchecos estão perto de deixar a Copa. E então Karol Bruckner - que formou um dos melhores times do mundo, daqueles que jogam bonito, são corajosos e enchem os olhos - será esquecido.

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