Quatro anos de férias
Tenho o hábito praticamente maníaco de ler o www.as.com e demais jornais e revistas online e blogs sobre futebol. A síndrome de novela mexicana que antecede (ou sucede) um torneio importante já começou.
E nada é mais sacal que a Ronaldomania. Não, não se trata de fazer de Ronaldo Gaúcho, disparado o melhor jogador do mundo, o centro das atenções no mundo da bola; o nome da vez, mais uma vez, é Ronaldo Nazário, ótimo atacante e fenômeno de marketing.
Ronaldo é esperto e paga muito bem àqueles que pensam por ele; sua assessoria bem poderia estar a servço dos melhores (e piores) políticos. O cidadão é 200 vezes mais egocêntrico e mimado que Romário, mas ao contrário do tampinha, todos têm peninha dele, torcem por ele. Apesar da vida invejável, é difícil - para muitos - admitir que Ronaldo é das criaturas menos dignas de pena no mundo inteiro.
O modo como o mais famoso dos camisas 9 encara a própria carreira é quase uma garantia de que o Brasil vai se dar bem na Copa da Alemanha. Tudo está se ajustando para que seu brilho no torneio seja absoluto.
Ronaldo é capaz de comover o mundo enquanto poupa energia e curte a vida.
A prova maior de tanto egocentrismo é o consciente estado de latência no qual o atacante mergulha depois de cada Copa de Mundo. Especialmente depois de 2002, quando percebeu que a maior glória de um jogador de futebol é fazer história em uma Copa do Mundo.
Ronaldo passou os últimos quatro anos na putaria, comendo e engordando mais do que o Frei Tuck, treinando pouco, circulando em revistas que dão talheres de brinde etc. Agora, de repente, como no início de 2002, começou a se dedicar ao seu ofício como não se viu em nenhum momento durante as últimas quatro temporadas. Mesmo que o Real Madrid, clube para o qual trabalha, deposite regularmente milhões de euros em sua conta desde a conquista do penta-campeonato mundial. Mesmo que a Seleção Brasileira - a quem vez por outra recusa convocações alegando estafa - potencialize sua popularidade mundo afora. Arthur Dapiéve disse uma vez que a popularidade da Seleção Brasileira entre os países menos favorecidos (que totalizam a maioria da população mundial) tem a ver com o fato da seleção proporcionar os únicos momentos de indiscutível triunfo do terceiro sobre o primeiro mundo, as únicas situações nas quais a lógica de excelência se inverte. Ignorar o bem que a conhecida camisa amarela faz à imagem de um jogador, portanto, é esquecer o evidente: os jogadores devem mais à seleção do que a seleção a eles. Embora não seja pouco o que os jogadores brasileiros fizeram nos últimos doze anos.
Ronaldo está se preparando como nunca para a Copa. Seu futebol tem evoluído velozmente nas últimas semanas. Alguns o chamam de predestinado. Outros, poucos, vêem na assertividade com que encara a profissão traços de um bom homem de negócios. Provavelmente as duas versões são verdadeiras. Ontem, no jogo Barcelona 1 x 1 Real Madrid, o homem correu como nunca, brilhou, brigou, extenuou-se em campo. Será assim até a última partida do Brasil na Copa. Ronaldo sabe que depois do Mundial terá pelo menos mais quatro anos para descansar.


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