domingo, março 19, 2006

Muita gente não ouviu porque não quis ouvir

Qual o verdadeiro peso da opinião alheia? Será que minha audição me engana com tanta freqüência? Provavelmente sim, é o sentido - junto com o tato - no qual deposito mais de 90% das minhas esperanças. Portanto, é natural que eu me foda homericamente pelo ouvido. Como quase qualquer um, não são poucas as vezes que fico sozinho com meus gostos, e como você sabe tão bem, vivo disposto a perder uma eternidade para argumentar (pela diversão, claro, vou tirar o que disso?) que gosto não apenas se discute, como se esfrega gentilmente na cara do próximo.
Dito isto, posso dizer que esse novo disco do Bonsucesso Samba Clube - Tem Arte na Barbearia - é coisa linda de deus, apesar do Bonsucesso ter uma imagem maior que o próprio trabalho, do vocalista ser um desafinado, do disco não causar muita comoção e ainda assim ter sido lançado às véspereas do carnaval, apesar da decadência da cena olindense, da confusão sonora, etc.
As opiniões acima não são minhas, e podem ser encontradas aqui e aqui.

Não encontro conexões reais entre essas afirmações e as músicas e shows do Eddie e Bonsucesso (conexões com os shows do Bonsucesso até que têm sim, pelo menos os shows de cinco, quatro anos atrás). Ainda assim, são impressões bem acabadas, embora de temperamentos e honestidades distintas: o texto contido no primeiro link oscila entre o tacanho e o maldoso. O que não quer dizer muita coisa e nos faz dar mais uma volta: qual o verdadeiro peso da opinião alheia?

(vestindo o jaleco e guardando a caderneta de chamada)

Começar pelo começo seria maçante, comecemos pelo final. Como surgem nossas conclusões sobre uma certa sonoridade? Em primeiro lugar, o que dizemos - para que possamos dizê-lo a partir do que realmente pensamos - depende do nosso caráter, do nosso espírito e evidentemente das circunstâncias. Mas vamos considerar que estejamos com tudo em cima, inquebrantáveis em nossas próprias resoluções, fidelíssimos a nós mesmos e à luz dos fatos. Nada de maldade, nada de leviandade, portanto.

Purificados, expressamos nossas impressões entre o absoluto e o relativo. Sim, dividimos os sons/sonoridades entre impacto absoluto e relativo. Um som de impacto absoluto é aquele que reconhecemos instantaneamente como bom ou ruim, sem que o processo suscite maiores dúvidas. Beatles, som de impacto absoluto. Goste-se deles ou não, os besouros são bons, se você tiver consideração por melodia, harmonia e urgência, três das principais grandezas em música. Não precisa nem ser bom ou ruim demais, a depender do número de elementos objetivos, um som pode, sim, ser rapidamente pesado, avaliado, pronto para um "gostei", "não gostei", "é bom", "é desgraçado", etc.
Desnecessário dizer que é quando dependemos menos da opinião alheia.

Em outras vezes, ficamos boiando, sem saber ao certo se gostamos ou não, se é bom ou não, o quanto é isso ou aquilo. Essa falta de chão que um novo som pode provocar é - na maioria dos casos - por si só suficiente para lhe darmos algum valor (é bem tentador inclusive considerar tudo a partir de uma suposta originalidade, o que é tão besta quanto considerar apenas o que é facilmente assimilável). Abrimos todos os cômodos da casa, vasculhamos todas as estantes tentando encontrar um lugar para o que ouvimos. Às vezes encontramos com certa dificuldade, às vezes espalhamos o novo espécime por vários cantos, como peças de um grande boi. Algumas poucas vezes temos que arranjar locação extra para o que acabamos de ouvir. É difícil estar certo de alguma coisa. Não importa se estivermos falando de Tony da Gatorra ou Steve Reich, de Residents ou James Blood Ulmer ou Anthony and The Johnsons.

Nessas horas, se não procurarmos a opinião alheia, corremos o risco de colocar o queijo no banheiro e o sabonete na geladeira. Normal, o bibliotecário similar a um deus não existe mesmo.

Alguns ouvintes mais indecisos chegam a esperar mais do que essa localização sentimental e física, querem saber se o disco pode entrar em casa ou não.

Com o passar do tempo, a relatividade musical vai virando artigo raro. Vamos dependendo cada vez menos da opinião alheia. Normal.

Um crítico musical precisa amadurecer mais rápido que nós, amadores de músicas. É uma vida dura, não nos enganemos. Enquanto curtimos a vida adoidado, o crítico musical está abarrotando a casa de cousas novas e velhas, ouvindo ávida e atentamente de tudo um enorme tanto, tentando evitar o imprevisto, disposto a desmascarar sons falsamente relativos. Esses caras são os nossos guias quando estamos perdidos. Em troca costumamos lhes dar pitos furibundos. E nunca admitimos quando nos demos bem graças a eles. Injusto.

Por outro lado, qual o peso da crítica alheia sobre a crítica do crítico? Se formos julgar pela homogeneidade de raciocínio e até mesmo de palavras o resultado é desalentador: o peso é enorme. A opinião da crítica é o que de menos caótico existe, é organizada, unidirecional, uníssona. Será a resposta adequada à arte? Estará à sua altura?
Se sim, cuidemos para não nos nivelarmos abaixo do nível do mar.

A sonoridade do novo disco do Bonsucesso não tem impacto relativo. Muito pelo contrário. Dá pra o ouvinte caminhar fácil com as próprias pernas.

O disco pode ser baixado aqui.

Adorei-o. Embora isso não te livre da possibilidade de um estrepada auricular homérica.

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