Starway to Heaven

Bill Gates mandou o powerpoint para nos salvar, mas logo ele se bandeou para o dark side.
Ignoremos a importância da ferramenta no envio de e-mails edificantes em massa. Basta abrir a tampa da lixeira e deixar deslizar, sem desembalar o conteúdo. Não há, realmente, porque reclamar. Caso se veja obrigado a dizer o que achou, não custa dizer "foi massa, pode mandar mais". Tá aí um pretexto para praticar a gentileza, essa imorredoura diversão gratuita.
Não, a espada flamejante do powerpoint é seu uso na palestra motivacional, dividida em três níveis de complexidade crescente, que aqui nomeio segundo a trilha sonora que costumam usar: tema da vitória de Ayrton Senna, balada de novela e piano vencedor (pense em Richard Clayderman). O tema, claro, é superação.
Por isso tenho tanto medo de contar a história que vou contar, e colocar a música que vou colocar.
Sigamos em frente.
Keith Jarret, você sabe, é um puta pianista. Ou melhor, um pianista do caralho.
O cara tem formação clássica, se fez tocando jazz, fez parte da banda de Miles Davis, foi secundado por Jack DeJohnette, é chegado num improsivo e se garante em concertos solo. Uber-fodão.
Tanto que se danou a fazer umas apresentações sem seus colaboradores de sempre, lá pelo meio dos anos 1970.
Numa dessas datas, na Köln Opera House, em Colônia (dã), Alemanha, Jarret passou mal e o piano que pediu não chegou (fatos independentes um do outro), esse tipo de coisa que acontece com quem torce pra times como Santa Cruz, Íbis, Botafogo, Corínthians etc. O show quase foi cancelado. Os motivos de não o ter sido devem valer a parte 1 de um documentário.
Sim, porque Jarret apareceu, sentou ao piano imperfeito, decidiu excluir da apresentação as primeiras e as últimas teclas defeituosas, e... improvisou do início ao fim com as teclas do centro.
Não tem um só trecho do concerto - que dura mais de uma hora - que já existisse antes. Foi tudo criado na hora, na tora, dia 24 de Janeiro de 1975, sexta-feira à noite.
Minto. Os dez primeiros segundos, estranhos, dando a impressão que o cara tá testando o teclado, são uma reprodução descontraída do toque de chamada do Köln Opera House, dá até pra ouvir o povo rindo. Daí em diante a música vai aparecendo por partes, desdobrando-se como um transformer(hahaha... ou ficando mais e mais monstra) junto com o humor do cara, que vai às alturas. É uma stairway to heaven, literalmente. Aos 7 minutos e 25 segundos Keith Jarret encontra Deus. Nem Tim Tones chegou tão perto. A fosforescência segue adiante, e só acaba quando termina.
Em alguns momentos Jarret uiva, suspira, faz a dança do acasalamento com seu casiotone da cauda.
É um dos melhores discos que você pode ouvir na vida.
Também, por acaso, é um clássico.
E vendeu que só a porra.
Se os amigos da auto-ajuda descobrem essa jóia da superação, esse Flash Dance erudito, esse Rocky do post-bop, a trilha sonora das palestras motivacionais ganhará uma bonus track. Imagine a emoção entre um coffee-break e outro.
Keith, meu velho, eu sou mau.
Part I - Keith Jarret
(The Köln Concert - 1975)
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