sexta-feira, julho 07, 2006

Freudball

Numa de suas viagens mais obscuras, Freud visitou Portugal. Lá, depois de um período de adaptação à culinária lusa,o sábio theco cunhou o seguinte provérbio: Quem não tem cabeça, tem pernas. Ou seja, quem não é lá muito inteligente e centrado faz mais besteiras, mas tem pernas pra se mexer e consertar o estrago (que normalmente é consertado com as mãos, mas vá lá, deixa o cara).
Fosse vivo, além de escrever livros de auto-ajuda, Sigismundo alteraria seu mais sábio provérbio para faturar unzinho a mais em tempos de copa. Com as barbas de volta à moda, ele diria, cheio de charme: numa Copa do Mundo, quem não tem cabeça, pode ter pernas, mas volta pra casa mais cedo do mesmo jeito.

Os quatro semifinalistas da copa têm, todos, cabeça, estrutura mental, embora alguns tenham mais medos que outros.

A Alemanha tomou a realização da copa para si na marra, concebeu a pequena Copa das Confederações como laboratório de luxo (do qual participaram cobaias como o deslumbrado Brasil e a Argentina), interferiu nas chaves de grupos de acordo com a própria conveniência, interferiu na escala e local dos jogos, fez a Fifa adotar uma bola perfeita para quem chuta de fora da área (qualquer observador mediano percebe que Brasil e Argentina - donos do melhor futebol do mundo, apesar de não possuírem as melhores seleções - fazem a maioria dos seus gols de distâncias curtas), interrompeu bruscamente os hinos da maioria dos seus rivais, obteve pros seus jogos juízes notadamente fracos, caseiros, de pouco pulso em jogadas mais 'ríspidas' (Ballack e companhia ganharam apenas cartões de crédito para bater em argentinos e italianos), empurrou para os outros o favoritismo, entre outras medidas mais ou menos sutis. Precauções acertadas para ganhar o quarto título mundial.
O técnico Klinsmann encontrou sua formação ideal e até deu uma ofensividade poucas vezes vista nas equipes alemãs. O time alemão também foi incansável, aguerrido, disciplinado e todas aquelas característica atribuídas à moral alemã (é engraçado como estereótipos sempre prevalecem em copas do mundo, e o dos brasileiros é certamente um dos piores).

Já a Itália, país pródigo em contradições culturais, viveu e vive mais um dilema típico das suas grandes seleções: por que atacar, mesmo tendo um número extra de jogadores talentosos, se a nossa praia é defender? Os caras nasceram pra segurar a rapadura lá atrás e não pra incomodar os zagueiros do outro time. Para eles, uma partida se decide sem cometer erros, esperando pacientemente o adversário vacilar. Acho que ainda é coisa da velha Roma, que esperou por um deslize de Cartago durante mais de cem anos, vai saber.

Ver a Itália jogar contra a Alemana foi uma aula de futebol defensivo. E olha, foi uma aula bonita. O tampinha Canavarro, com seu 1,73m, é um mestre na arte de defender. Suas antecipações, desarmes e cabeceios diante de atacantes de 1,90m são daquelas coisas inexplicáveis, como deve ser inexplicável para um europeu a habilidade ofensiva de um bom jogador brasileiro ou argentino.

A Itália anulou a Alemanha, que atacava pelos lados. E assim o jogo morreu.
Entenda, bote fé e tenha certeza: quando a Itália decide não levar gols, os gols simplesmente não acontecem, mesmo que ela não os faça.
A Itália assim decidiu na semifinal de 1990, na final de 1994 e nas quartas-de-final de 1998. E se fodeu nas três vezes, derrotada nos pênaltis.

Jogando na Alemanha, em um estádio que nunca vira uma derrota alemã, o jogo terminou, claro, 0x0.

Pelo lado da Alemanha, que havia marcado em todos os jogos da copa, isso certamente não foi muito legal pra estimular a auto-confiança.

Pelo lado italiano, imagine: a prorrogação devia ser aquele lugarzinho maligno entre a cruz e a espada: se não quisessem, não haveria gol no jogo, mas se não houvesse gols, iriam para os pênaltis. Você faz idéia do tamanho do medo que os italianos devem ter das cobranças alternadas de pênaltis?
Só este extremo para motivar o técnico Marcelo Lippi a adotar uma postura extrema: colocar os craques Totti e Del Piero pela primeira vez (acredite) juntos, mais os atacantes Gilardino e Iaquinta, além do habilidoso Pirlo. Sinceramente, pensei que eram sinais do Apocalipse. Pense num medo que os caras deviam estar dos pênaltis. Hahahaha

A prorrogação começou com duas bolas na trave e travessão da Alemanha. A própria Alemanha teve chances de matar o jogo, mas não parecia, mesmos nesses momentos, capaz de enfiar a estaca no coração da Itália, que é um Jason do futebol.
E o jogo continuou aberto, lá e cá.

Ao final, a um minuto das cobranças de pênaltis (milhares de italianos gesticulando para os céus, pedindo ajuda a Santa Genoveva), a Itália fez um golaço de dentro da área alemã congestionada de defensores.
Um minuto depois, outro golaço.

Aí veio a imprensa "especializada" dizer que a Alemanha não tinha mesmo time pra ganhar a copa, que fora longe demais etc. Puta merda. Os alemães só não ganharam a copa porque deram o azar de pegar um dos dois únicos times no mundo que realmente metem medo neles, que é a Itália. O outro? Não é a França, nem a Inglaterra, nem a Holanda, nem Portugal (que Deus o tenha), nem a Argentina.

O problema agora é que a França* só faz tremer dois times no mundo inteiro: o Brasil e... a Itália. Lembra da humilhação da Eurocopa 2000? Lembra não, né? E da copa de 1998? Pois é.

Fodeu.




*Por motivo já declarado em post anterior, continuo me recusando a aceitar a existência da seleção francesa. E isto não tem nada a ver com a piaba que o Brasil tomou.

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