O terço feliz da massa
Nem é preciso dizer muita coisa, o mundo inteiro viu (até no site da FIFA o malassombro apareceu). O jogo entre Náutico e Grêmio transformou o bem jogado e emocionante Santa x Portuguesa num espetáculo coadjuvante. O Arruda bateu todos os recordes de público no Brasil em 2005, 70000 pessoas, quase 64000 pagantes. A comemoração do gol de virada tricolor galvanizou os vergalhões da geral, deixou todo mundo rouco, louco, boquiabriu a imprensa esportiva que cobria o evento. Foi lindo e inigualável. Sem contar os malas chamando o angolano Johnson de miserávi, insulto que não se ouve tão bem falado em nenhum outro canto do mundo. Sem contar os molequinhos, novos torcedores tricolores, de gorro na cabeça, camisa girando na mão e cânticos de guerra na garganta.
Tudo, tudo, tudo, até mesmo o apito final seguido de chororô e risadagem, eclipsado pela sombra negra que vinha dos Aflitos.
O Santa dava a volta olímpica em campo quando o Náutico perdeu mais um pênalti e levou um gol de um time com 7 jogadores, tirando o então inquestionável título do Santa Cruz.
Isto todo mundo sabe e já decantou zilhões de vezes, ok, contextualizo, apenas.
Porque tô aqui pra martelar as três teclas que faltam nessa música:
I) O Grêmio não ganhou um jogo impossível, o Náutico é que perdeu a partida mais ganha da história. Se o Grêmio ganhou alguma coisa, foi por acidente, simplesmente porque estava lá, presente. Torcedores e jogadores do time gaúcho terão uma bela história pra contar, sem dúvida, mas ao contrário do que se espalhou por aí, essa não é uma história de fantástico sucesso do Grêmio, um time acostumado a se dar muito bem freqüentemente e às vezes a se dar muito mal. Não. Essa é uma história de fantástico fracasso do Náutico, um time acostumado a sempre se dar mal no final, a entregar o ouro pro bandido depois da última cena do filme, enquanto sobem os créditos.
Vi o povo na tv narrando outras façanhas incríveis do time de Porto Alegre e deu vontade de rir, porque definitivamente eles não conhecem as "façanhas incríveis" do time da Rosa e Silva. Eu mesmo já me beneficiei gloriosamente de uma delas, em 93, quando o Santa - com o artilheiro do time expulso - virou um jogo que precisava ganhar aos 39 e 43 minutos do segundo tempo. Não foi um, foram dois gols faltando menos tempo pra acabar o jogo.
Não se vangloriem tanto, torcedores do Grêmio, o protagonista não foi o heróico, foi o trágico. O time do Grêmio - mesmo com a brilhante vitória (sim, porque fizeram o tal gol com seis jogadores em campo mais o goleiro, apesar das circunstâncias e da inoperância durante o resto do jogo) - foi mero figurante nos Aflitos, a observar a absurda performance de um time superior tecnicamente, com uma torcida fanática e próxima de si, perder dois pênaltis e ainda levar um gol com três, quatro homens a mais em campo. Repito, não há heroísmo no time que não sofre o gol de pênalti (vide o travo amargo na final da copa de 94 e as desgraças que soterraram Zico e Roberto Baggio), a não ser que o goleiro faça realmente uma defesa miraculosa, o que está além das capacidades do limitado goleiro do Grêmio.
A ação está em quem perde, não em quem não toma. O Grêmio, como espectador da magna incompetência alvirrubra, saiu triplamente beneficiado: ganhou o acesso à primeira divisão, ganhou um título que não tinha, nem pretendia e quintuplicou sua aura mítica. Será praticamente impossível agora não acreditar no marketing do "time guerreiro", essa grande conversa fiada dos pampas.
Só resta ao Náutico dois caminhos possíveis: fechar as portas e abandonar o futebol, como fez um amigo meu, torcedor do timbu, ou se tornar um dos maiores times do mundo. Porque o meio termo seria uma morte em vida.
II) Nós, torcedores do Santa Cruz, não vibramos porra nenhuma com a perda do segundo pênalti batido pelo Náutico. A televisão soube explorar muito bem as imagens, criando uma rivalidade que não existia: primeiro porque estávamos felizes demais com nosso triunfo, segundo porque muitos de nós - sofredores crônicos - nos identificamos com este lado torturado do torcedor dos Aflitos (pense bem, isso lá é nome de estádio?), terceiro porque queríamos que o Grêmio - time que ignora regras desportivas básicas e acha isso lindo - se fodesse de verde e amarelo, e quarto e não menos importante, seríamos campeões com a derrota gremista. Simplesmente não faria sentido torcer contra o Náutico.
Dizer que uma imagem vale mais do que todo um palavrório é ignorar o óbvio e desprezar o fato termos ficados sinceramente abalados com o absurdo do estádio vizinho.
Ninguém deixou o estádio do Arruda depois do fim da partida, todos esperavam a conclusão do pênalti, que se prolongava numa agonia de informações cortadas, contrárias. Quando chegou o momento fatal gritamos gol num impulso (lembrem-se, fomos os únicos no Brasil inteiro sem imagens do que acontecia lá), todo mundo começou a se abraçar e comemorar, precipitando o reino da alegria. Aí vieram as notícias do desperdício da chance se difundindo como o veneno da black mamba. Mentira! Como é que pode? Foi, perdeu. Isso é um time de rapariga! Puta que pariu!
E enquanto praguejávamos aconteceu o pior: gol do Grêmio. Com quatro a menos? Sim, com quatro a menos...
Não deu nem pra perceber que a taça simbólica de campeão circulando no gramado era mais uma bizarrice daquele fim de tarde.
III) Meus caros torcedores do Sport, quer dizer que vocês estavam aí esse tempo todo, hein? Bem, sejam bem vindos de volta à conversa, mas vejam se largam de gozar com o pau dos outros. Estamos na primeira divisão e vocês não (ano que vem é por pontos corridos, macacada, e tem Atlético Mineiro, Coritiba, Portuguesa, Guarani e o próprio Náutico, do qual, se não me engano, vocês são fregueses; ah, e só sobem dois). Somos campeões pernambucanos e vocês não. Disputaremos junto com o Náutico a Copa do Brasil e vocês não. Não nos fodemos no ano do centenário e vocês sim. Não disputamos e perdemos uma copinha fuleira contra times do interior do estado por falta do que fazer e perdemos, vocês sim. Agora poderemos curtir nossas merecidas férias, enquanto vocês voltam ao batente, visando um 2006 menos medíocre. Pra finalizar, vocês bem que tentaram levar nosso estimado professor - seguindo a má e velha política rubro-negra de surrupiar valores dos rivais, mas se foderam novamente. A gente já tem time e técnico pro ano que vem, vocês não.
Nos vemos no Pernambucano, aguardem; apareçam e não façam muita vergonha, porque só vamos nos encontrar lá.
:p


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